Walt Kowals
ki, vivido por Clint Eastwood octogenário, aposentou-se em uma montadora de veículos onde trabalhou desde o fim da Guerra da Coréia. A esposa morreu há pouco tempo. É um dos poucos moradores antigos de um subúrbio agora dominado por imigrantes. Recusa-se a deixar o bairro no qual morou por toda a vida.Passa os dias a cuidar do quintal, consertar a casa, polir um Ford Gran Torino 1972 impecável sob seus cuidados há quase 40 anos. Não evita demonstrar o mau humor e praguejar contra filhos e netos, o padre insistente em levá-lo aos cultos e os vizinhos. Principalmente contra os vizinhos orientais. O mundo está para conhecer alguém tão ranzinza e preconceituoso quanto o senhor Kowalski.
O bairro é disputado por gangues e certa noite uma delas tenta seqüestrar o adolescente da desprezada casa ao lado. A gritaria termina quando o senhor Kowalski aponta um rifle para a cabeça dos criminosos. O episódio evolui para uma convivência forçada com os orientais e assim o velho poderá rever perspectivas sobre a vida, os sentimentos, os conceitos estabelecidos previamente ou não.

O filme é composto por símbolos e é animador desenvendá-los no desenvolvimento do enredo. No homem que cospe no chão ao encarar qualquer ‘china’ que insista em olhar para ele pode ser encontrada moralidade sólida e rara. A confissão insistida pelo padre e rejeitada por Kowalski trará uma libertação. Imagina-se desde o início que o ódio gratuito será transmutado. Porém nada ocorre da forma que esperamos.
O aposentado e veterano de guerra tenta preservar no carro o país de outros tempos. Cada camada de cera aplicada é o esforço de não deixar sumir o que outrora foi e já não é. A responsabilidade da decadência é dos que chegam ou da falha sustentação aos valores pelos que ficaram? Afinal, os pais e avós do velho eram também imigrantes quando chegaram aos Estados Unidos no século XIX.
Clint Eastwood
ganhou os concorridos holofotes do cinema ao encarnar o homem sem nome em produções dos anos 60 ambientadas no velho oeste. Aos 36 anos, idade avançada para um ator se revelar, voltou aos Estados Unidos com sucesso suficiente para estrelar títulos de peso. Em poucos anos lançou o thriller Perversa Paixão, a estreia como diretor. Desde então dirige em média um filme por ano, continua a atuar em tantos outros, compõe profissionalmente ao piano e se elegeu prefeito, nos anos 80, da pequena cidade de 4 mil habitantes onde mora na Califórnia. No novo filme, o ator Clint vive mais um personagem memorável. O diretor Clint confirma-se como o autor que melhor harmoniza a Hollywood clássica com o cinema contemporâneo.Muitos escreveram sobre Gran Torino ser a redenção de Eastwood por ter vivido por anos como a face do andarilho que atira antes de perguntar no oeste selvagem ou o detetive reacionário e machista Harry Callahan, o Sujo. A despeito de projetos pessoais como o drama romântico As pontes de Madison e as obras sentimentais Bronco Billy, Menina de Ouro e Sobre Meninos e Lobos, não faltaram protestos contra o suposto machão. Talvez a história de Walt Kowalski seja também sobre como alguém é visto e, consequentemente, julgado.
Quando o velho salva o garoto de ser levado não pretende ser herói. Para ele é simplesmente uma regra: ninguém pisa em seu gramado. A qualidade intrínseca em cada gesto vai além da vontade do executor. Seja a vítima, os parentes ou as testemunhas assustadas, o íntimo de cada participante julga o ocorrido, não a intenção. Kowalski não pode evitar ser visto como algo que não gostaria. Está além do desejo de cada um de nós. Cabe-nos, no máximo, reavaliar como vemos os outros e fazer o que para nós é importante. A exemplo de Clint.
Gran Torino trata da segunda chance, da oportunidade de identificar erros e fazer algo para convertê-los em acertos. E de como a vida pode apresentar essa oportunidade.
